"Inverno amazônico. A chuva cai a tarde toda. Estou no Cabuletê e minha alma se molha como as árvores que meu pai plantou durante 30 anos lá fora: as castanheiras - uma delas será sacrificada pois cresce demais e está na passagem e se o ouriço cair lá de cima pode matar um. Mas tem outra lá atrás. E tem seringueira, cumaru-de-cheiro, mogno, cedro, imbaúba, samaúma, dendê, jatobá, abil, cajá, cupuaçu, copaíba, faveira, côco, coquinho ouricori, tucumã, pupunha, buriti, carambola, graviola, manga, ata, acerola, açai, abacaba, marupá, ixória, helicônia, viuvinha, lírio, acácia, orquídea bambu, antúrio, azaléia, flamboyant, cacto, maria-sem-vergonha, catinga da mulata, begônia, maravilha, manacá, alpinha, alamanda, cheiro-verde, rúcula, tomate, capeba, jambu, gengibre, taioba, cará, erva cidreira, manjericão, chicória, salsa, alecrim, açafrão, boldo, alfavaca, capim-santo, hortelã, menta, pimenta...chá, chá, chá. Meu pai criou no Cabuletê um pulmão verde para compensar o seu, consumido pelo enfisema que o cigarro lhe deixou. Com este pulmão resistiu 30 anos, até morrer aos 83.

Vista do Cabuletê

Taioba da folha branca, no banheiro do Cabuletê
Ah! o velho Careca. Quase analfabeto, teve de deixar a escola aos 10 anos para trabalhar na coleta de castanha. Filho do velho Benedito que ganhou o apelido de Pega-pinto graças ao refresco que fazia com a raiz de... pega-pinto. Jura minha mãe que o pega-pinto é mais que um remédio: limpa o sangue. Nesses tempos de coca-cola zero e água adicionada de sais seria muito bom provar o velho refrigerante que o vô Benedito vendia no Tentamem.

Não conheci meu avô. Morreu cego, ditando poemas pros filhos copiarem. Não devia ditar pro meu pai, coitado, pois este sofria do grave defeito de ser canhoto, pecado jamais perdoado pelos mestres da escola onde ia com um pé calçado e o outro descalço, tingido de urucum. Precisava dividir o sapato com o irmão que usava do mesmo estratagema. É, o Benedito poeta e vendedor de refresco de pega-pinto não tinha mesmo dinheiro pra comprar os sapatos todos dos meninos e o grupo escolar não perdoava. Só entrava calçado. Então o jeito era fazer de conta que o outro pé estava machucado. Acho que veio daí o hábito de meu pai de usar a imaginação. Era um contador de história nato. Mais. Era um criador de história. A do bebê, encontrado chorando na porta do cemitério - o Benedito morava com os filhos ao lado do cemitério - quando ele voltava de uma festa arrepiava meus cabelos de menina, quando ia dormir. Pois ele resolveu levar o tal bebê ao mercado, naquela madrugada de friagem cortante, na esperança de encontrar uma alma caridosa que ficasse com o menino. Colocou então a criança morta de frio debaixo do capote e seguiu. No meio do caminho ele resolveu abrir o capote pois o menino começou a pesar. Pois não é que o danado já não era mais bebê, mas o próprio capiroto e arreganhou os dentes, num sorriso de vampiro? O Careca, abandonou imediatamente o coisa ruim e saiu em desabalada carreira. Ao se aproximar da catedral viu na esquina uma pessoa. Pensou, ufa! finalmente, uma alma viva! E lá se foi contar a história do menino desamparado que pesou no capote e arreganhou os dentões enormes de vampiro danado. Pois o homem virou-se para meu pai e abrindo um sorriso falou: e não serão estes dentes aqui, não? Pena que o Careca não pode continuar na escola. Pois além dos sapatos o grupo escolar exigia que os alunos fossem destros. Canhoto tinha que passar a aula toda com o joelho no milho ou com a mão esquerda para cima, como numa saudação hitlerista. Além de receber palmatória até que abandonasse o perigoso "vício" de escrever com a mão esquerda. Resultado, o Careca fugiu da escola e o Benedito não reclamou, já que ele ajudava em casa carregando latas de castanha nas costas. Careca cresceu fora da escola, mas virou sábio. E casou com a Raimunda, filha de soldado da borracha aqui chegada em 44, aos 11 anos.

Raimunda e Careca
Tia Raimunda
Ela também não pode ir pra escola por muito tempo. Os 6 filhos foram chegando um em cima do outro e Raimunda não tinha tempo de estudar pois além dos filhos ele ajudava o Careca na Casa do Pão, hoje belíssimamente reconstruída lá no novo Mercado Velho. Mas de pão em pão o Careca e a Raimunda deram formação universitária para todos os 6 filhos. Eu mesma, estudei um bocado, mas não consegui alcançar a sabedoria do velho Careca. Foi um ecologista antes do tempo. Além de plantar pra respirar, distribuia mudas por toda a cidade. Foram mais de 200 mil, ao todo, desde que criou a Reflorestadora Silvestre, batizada poeticamente com o Silvestre que Raimunda carregava quando solteira. Aqui no Cabuletê não deixava matar bicho algum.
Nem caranguejeira nem cobra. 
Cobra, com 3 metros, da criação do Careca no Cabuletê
Caranguejeira, da criação do Cabuletê, que nos visitou no dia
do aniversário da Matriarca Zilma, em 29 de julho de 2006
Antes da estrada passar, pois há sempre uma estrada que passa para atrapalhar, tinha um açude onde criava tambaquis, pirarucu, jacaré, tilápias, carpa, curimatã, pacu e o que mais pudesse, só pelo prazer de distrubuir com os amigos e com quem mais viesse. Certo dia foi com meu irmão comprar uns alevinos pro açude. Ao invés do habitual milheiro que comprava todo ano, resolveu comprar 5 milheiros. Meu irmão estranhou, Mas pai, pra que tanto peixe? Não se incomoda, toca lá pro Amapá.
Tancredo Filho, Careca e Mariazinha, no Açude do Braga
E lá foram, os peixes, meu irmão e o Careca pro lago do Amapá. Lá chegando o Careca pegou os alevinos e jogou no lago. Diante do olhar espantado do meu irmão, falou: este lago deu muito o que comer pra minha família quando eu era menino. Agora tô devolvendo um pouco. E como era um pacificador nato, me disse um dia: dou graças ao meu mestre que me tirou da escola e me colocou a lata de castanha nas costas. Me ensinou a trabalhar bem cedo. É, o Careca não teve muito estudo mas, em matéria de sabedoria, desbanca muito doutorzinho por aí.
Alan Kardec e Careca, na praia da Base